quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Santos=Dumont ou os irmãos Wright, Quem realmente inventou o avião - Parte 1

 

A questão da 'primazia do vôo' - quem de fato inventou a navegabilidade aérea, e nos trouxe todos os benefícios da magnífica invenção de aparelhos que permitem o vôo humano, é um assunto muito debatido no Brasil hoje, mas parece que ser uma questão encerrada nos Estados Unidos - é até mesmo considerada como um tabu por agluns americanos.


Sempre que posso fujo dessa questão, principalmente quando tem amigos americanos na conversa, mas esta semana fui colocado contra a parede e precisei dizer minha opinião a respeito. Estava com João Villares, sobrinho-bisneto de Santos=Dumont, cuja semelhança física com o inventor sempre me deixa emocionado (veja a foto), alguns oficiais da aeronáutica brasileira, amigos e um grupo de repórteres na base aérea da Aeronáutica de São Paulo, que incansavelmente buscavam por respostas.

Depois disso, em encontro com os amigos 'Dumontologos', Marcos Palhares, Astronauta da Virgin Galactic e Henrique Lins de Barros, maior e mais respeitado estudioso de Santos=Dumont, (você pode assistir a essa LIVE aqui), foi que resolvi fazer essa postagem, relutantemente, pois prefiro bem mais mostrar em meu blog a ‘maravilhosa vida de Santos=Dumont’ , como o próprio título diz, do que ficar trazendo assuntos que permitam a já acirrada disputa e divisões que poluem as páginas das redes sociais ultimamente. 

“Então, vamos lá” eu disse “voltemos para o dia 23 de outubro de 1906, no Campo de Bagateli, em Paris...” 

Luiz Pagano e João Villares, sobrinho-bisneto de Santos=Dumont na Base Aérea de São Paulo, ao fundo pinturas Tupi Pop de Luiz Pagano, integrantes do acervo da Aeronáutica, na Sala das Autoridades do aeroporto de Guarulhos

Nesse dia Santos=Dumont acaba de se consagrar como detentor do prêmio Archdeacon por ter voado 60 metros com uma aeronave concebida, desenhada e pilotada por ele mesmo. As regras pediam que o dispositivo aéreo decolasse por meios próprios, sem qualquer tipo de ajuda externa, tivesse controles de voo pertinentes, e aterrissasse, sem acidentes de qualquer espécie. S=D fez isso na frente da comissão julgadora, na presença de membros da comunidade científica da época, repórteres fotógrafos e até mesmo um cinegrafista, sem falar nas milhares de pessoas presentes no parque - todos estavam em festa pois a humanidade acabara de ver o primeiro voo do mais pesado que o ar.... 

Nesse momento, um camarada ranzinza se aproxima, determinado a acabar com o clima de festa e grita ao povo “más, esperem um pouco, já tem gente voado na America” , umas três ou quatro pessoas que o escutam em meio a multidão olham em choque para o senhor, e um deles exclama “o que está dizendo?”, o estraga prazeres então prontamente prossegue:

Estraga prazeres - Esse não foi o primeiro voo.
Interlocutor perplexo – O que está dizendo?
Estraga prazeres – Dois irmãos na America já voaram, a quase três anos atrás, numa praia da Carolina do Norte.
Interlocutor perplexo – foi registrado pela comunidade cientifica, teve testemunhas?
Estraga prazeres – Sim, alguns funcionários públicos, três passantes, um cachorro e até mesmo presidente do banco da cidade.
Interlocutor perplexo – o avião decolou por meios próprios?
Estraga prazeres - Não, a decolagem era realizada através de um trilho que puxava o avião, sem o uso de rodas, e o lançava nos ares.
Interlocutor perplexo – isso está relatado em algum lugar?
Estraga prazeres - no diário pessoal deles.
Interlocutor perplexo – Eles tem patente, ou algo que comprove o voo?
Estraga prazeres - Os Irmãos Wright deram entrada na patente ainda antes de seu primeiro voo experimental. O requerimento, que incluía diagramas da invenção, foi enviado em 23 de março de 1903.

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Esse foi um dialogo hipotético, más baseado nos fatos da época.

Em minha defesa

Devo dizer que admiro muito os irmãos Wright considero o trabalho deles genial, e os coloco ao lado de o de diversos outros pioneiros da aviação, amo a cultura americana e invejo a forma que tratam seus heróis na America, eu até mesmo coloquei uma réplica do Fliyer numa de minhas histórias em quadrinhos (veja a foto – revista Superinteressante Edição 172, fevereiro de 2002). 

Tive o enorme privilégio de trabalhar em duas empresas americanas, o antigo Chemical Bank por quase três anos e uma fabricante de fogões de Los Alamitos CA chamado Dynmac Cookins Systems, sempre fui muito bem recebido nos Estados Unidos e principalmente, amo sua gente, gostaria muito de ter em meu país, o Brasil, um sistema que privilegia tanto o cientista, os museus, os professores e as descobertas científicas, como os EUA fazem. 

Ilustração de Luiz Pagano para sua HQ, com uma réplica do Flyer dos Irmãos Wright ao fundo "Admiro e respeito muito os Irmãos Wright, assim como a dedicação do povo americano à ciência"

Por fim, não quero de forma nenhuma desmoralizar ou reduzir a importância de ninguém,  simplesmente quero fazer reconhecer os fatos que precisam ser reconhecidos na questão da primazia do voo, de forma documental cientifica.

Isso posto, vamos aos fatos:

Por que o Smithsonian menospreza Santos = Dumont?

Marcos Palhares, estudioso de Santos=Dumont, em visita ao Smithsonian, constatou que apesar de possuir um grande acervo de peças do nosso pai da aviação, o Museu Nacional do Ar e Espaço do Smithsonian, instituição que mantém o maior e mais significativo acervo de aviação e espaço do mundo, totalmente dedicado à ciência da aviação, colocaram Santos=Dumont em um canto inferior de seu imenso espaço, com alguns modelos, com as seguintes palavras:


“O brasileiro Alberto Santos-Dumont fez o primeiro vôo público de avião motorizado na Europa com seu 14-bis em 23 de outubro de 1906, percorrendo 60 metros (197 pés). Em 12 de novembro de 1906, ele viajou 220 metros (722 pés), ainda aquém do melhor vôo dos Wrights de 1903".( "Brazilian Alberto Santos-Dumont made the first public flight of a powered airplane in Europe with his 14-bis on October 23, 1906, covering 60 meters (197 feet). On November 12, 1906, he traveled 220 meters (722 feet), still short of the Wrights' best flight of 1903"[sic.])

Fica claro que, infelizmente, a instituição omite a ciência em nome da política 'America First' e despreza as conquistas do aeronauta brasileiro.

Esse tipo de atitude apenas levanta suspeitas contra o contexto histórico americano - ao comparar os Wrights com Santos=Dumont de forma tão diminuta, é evidente que em algum momento da história, as múltiplas conquistas de Dumont causaram desconforto à frágil e insustentável posição de primazia dos irmãos.

Os voos secretos dos Wright

Após o voo secreto realizado em Kill Devil Hills, Carolina do Norte, em 17 de dezembro de 1903, os irmãos Irmãos Wright - Orville (19 de agosto de 1871 - 30 de janeiro de 1948) e Wilbur (16 de abril de 1867 - 30 de maio de 1912) continuaram o trabalho em um pasto de vacas em Dayton de  1904 a 1905. 


João Villares, sobrinho-bisneto de Santos=Dumont, mostra o relógio de cabeceira que Santos=Dumont usava em todas as suas viagens. no verso as inscrições "appartenant à Santos = Dumont" - pertence a Santos=Dumont

Os Wrights preocuparam-se muitíssimo em não serem copiados. Não queriam de forma nenhuma revelar sua criação sem a proteção de uma patente e um contrato de venda assinado, os irmãos permaneceram no local pelos próximos dois anos e meio enquanto tentavam comercializar sua invenção.

Foi assim que, ao amanhecer de 1908, com os contratos de venda de aviões para um sindicato francês e o Exército dos EUA finalmente em mãos, os Wrights alegam terem decolado novamente naquela primavera. Eles voltaram para Kill Devil Hills com uma versão reconstruída de seu avião de 1905 - agora modificado com assentos verticais e controles, e um segundo assento para um passageiro. 

Em 14 de maio de 1908, Wilbur e Orville dizem terem levado Charles Furnas, um de seus mecânicos, como um passageiro.

Wright e o voo que viola aas leis da física

Segundo Ozires Silva, co-fundador da Embraer, o conglomerado que é a terceira maior empresa do ramo no mundo, o Flyer nunca poderia ter voado porque violou as leis da física.

As leis da física dizem que é necessário 1Hp para elevar 6 kg do solo, o Flyer tinha quase 23 kg por Hp - voo impossível

Segundo ele, existe uma relação peso/potência do motor, em que aviões mais pesados que o ar precisam vencer a gravidade por meio do deslocamento na atmosfera - 1 Hp sustentando 6kg de voo é o limite, quanto maior o peso por HP, menor a probabilidade de voo.

No caso do 14 bis de Santos=Dumont, tinhamos um motor de 50 Hp para sustentyar uma aeronave com 290kg (média 5,8 - dentro do limíte do possível). Já o Flyer pesava 274,4kg e tinha um motor de 12Hp (média 22,83 - completametne fora do possível).

As leis da física falam por sí.

Os voos públicos dos irmãos Wright 

É importante que se diga que o primeiro voo efetivamente público dos irmãos Wright aconteceu somente em 08 de Agosto de 1908, no qual foi devidamente acompanhado por uma comissão científica, documentado por fotos e filmado na presença do grande público. Antes disso, todos os outros voos alegados não tiveram nenhum tipo de comprovação, foram meramente baseados em alegaçãoes e fotos fora de conterxto, não muito diferendte do voo dos pioneros anteriores a Dumont.

Réplicas Voadoras - Nenhuma tentativa de replicar o vôo do Flyer dos irmãos Wright decolou, comoa de Ken Hyde da Wright Experience com o Instituto Americano de Aeronáutica e Astronáutica (AIAA). Enquanto isso, réplicas do 14-Bis voam regularmente, como uma das pertencentes ao entusiasta e piloto Alan Calassa, que até queria mandar uma delas para o Smithsonian - infelizmente, a proposta foi rejeitada pelo museu.

Os Wrights convidaram o público para testemunhar seus voos no final de maio de 1904. Cerca de 30 repórteres apareceram em Huffman Prairie em 23 de maio. Os Wrights não conseguiram fazer o motor do avião funcionar e todos voltaram para casa decepcionados. 

Um punhado voltou em 26 de maio, mas os Wrights só conseguiram um vôo planado de cerca de 25 pés.

Em 1905, depois que os Wrights sentiram que haviam eliminado os bugs de sua invenção e criado um avião prático, eles convidaram o público a voltar novamente. Eles enviaram cerca de 30 convites para pessoas que achavam que seriam testemunhas confiáveis. Centenas de pessoas apareceram em Huffman Prairie para vê-los voar em 4 e 5 de outubro de 1905. Em 5 de outubro, Wilbur alega ter conseguido manter o Wright Flyer 3 no ar por 39 minutos, voando 30 circuitos completos do campo e cobrindo mais de 24 milhas - em público.

Para resumir, os Wrights alegam terem feito pelo menos seis voos públicos com vários graus de sucesso antes do voo de Dumont de 1906. 

Se só alegações de testemunhas servem para atestar o primeiro voo, devemos desconsiderar Dumont e os Wright para elegermos Clement Ader como o grande inventor , que alegou ter feito um voo com o Éole (também conhecido como Avion) antes de 1900. Ader, tal como os Wrights, estava voando em segredo para os militares. 

O mundo só testemunhou o voo dos irmão Whright no ano de 1908, na França, quando Wilbur deu início ao voo acionado por catapulta (não decolou por meios próprios) em 8 de agosto de 1908, quase dois anos depois de Dumont, na pista de corrida de cavalos Hunaudières, perto da cidade de Le Mans, na França. Seu primeiro vôo durou apenas 1 minuto e 45 segundos.

Alem de Dumont e dos Irmãos Wright, quais outros pioneiros reinvidcam o titulo de primeiro a voar?

- Abbas Ibn Firnas - O primeiro relato de voo planado aconteceu no ano de 875, na Andaluzia, um poeta da época disse que ele voou mais rápido que a Fenix, más demorou muito mais tempo que a ave para se recuperar do terrível acidente;


Bartolomeu Lourenço de Gusmão (Santos, Brasil, dezembro de 1685 - Toledo, 18 de novembro de 1724) foi o primeiro inventor e cientista brasileiro, famoso pela criação do balão de ar quente em 1709.


Pela concepção e teste de um balão em escala chamado de Passarola,  Bartolomeu Lourenço de Gusmão, apelidado de padre voador, foi considerado o pai da aerostação. Mas devemos  lembrar que foram os Irmãos Montgolfier: Joseph-Michel e Jacques-Étienne, dois irmãos pioneiros inventores franceses, que construíram o primeiro balão tripulado do Mundo, que elevou Étienne aos céus em 5 de junho de 1783.

- João de Almeida Torto - era um português residente em Viseu que em 1540 com o auxílio de um aparelho voador de sua autoria, no dia 20 de junho, tentou voar com um sistema de asas de sua própria fabricação.


It is said that on June 20, 1540, João Torto will have climbed to the top of the Cathedral of Viseu where he had built, with the permission of the Church, a launching ramp.

-Karl Wilhelm Otto Lilienthal (Anklam, Pomerânia, 23 de maio de 1848 — Berlim, 10 de agosto de 1896), conhecido como o "Pai do voo planado"A partir de 1891, Otto iniciou sua coleção com mais de duas mil tentativas de voo, em alguns casos realizadas até 80 vezes por dia. 

Em diversas dessas ocasiões o aviador alemão teve o pé torcido e braços quebrados, no que podem ser considerados os primeiros acidentes aéreos.



Kōkichi Ukita (浮 田 幸 吉, 1757 - 1847) foi um pioneiro da aviação japonesa, antepassado de meu amigo Yasuyuki Ukita, escritor e Jornalista, frequentemente elogiado por fazer asas artificiais e voar com elas. Ele é considerado o primeiro japonês a voar. Ele também é conhecido como Chōjin Kōkichi (鳥 人 幸 吉 / Kōkichi o homem-pássaro), Hyōgu-shi Kōkichi (表 具 師 幸 吉 / Kōkichi, o Paperhanger), Sakuraya Kōkichi (櫻 屋 幸 吉), Bizen'ya 吉ōkichi (備 前 屋), (備考 斎).


Ukita tentou voar de uma ponte sobre o rio Asahigawa (旭川) no verão de 1785. Algumas referências dizem que ele planou vários metros, mas outras dizem que ele apenas caiu.

Vários outros aviadores ou seus apoiadores reivindicaram o primeiro vôo tripulado em um avião motorizado. As reivindicações que receberam atenção significativa são:

-Shivkar Bapuji Talpade no Marutsakhā (1895) - voou 460m na Praia de Chowpatty, em Mumbai, pioneiro indiano com interesses em aeronáutica e sânscrito;


-Clément Ader em 1897 inventou e patenteou uma aeronave com base nos projetos de um pioneiro da biomimética, Louis Pierre Mouillard, chamada por vários nomes – Éole; Zephyr; Avion, más que os franceses gostavam de chamar de ‘énorme chauve-aouris en lin’ (o enorme morcego de linho)bat).


Tinha um motor a vapor redesenhado em alumínio leve, com 4 cilindros e 20hp de potencia, o Éole Ader voou 100m a uma altura de 20 cm do chão em Sartory, ao sul de Versailles;


-Gustave Whitehead, um imigrante alemão, residente em Connecticut com os aviões modelos 21 e 22  (1901-1903) – o número 21, que tinha seu desenho inspirado na asa de Lilienthal, voou pela primeira vez 201 metros em Fairfield; 

-Samuel Pierpont Langley (1903) - e seu aeroplano chamado 'Aerodrome A';


-Karl Jatho (1903) - Em 18 de agosto de 1903, 4 meses antes de Orville Wright, Karl-Jatho, nascido em Hanover em 3 de fevereiro de 1873 - Hanover, decolou de terreno plano com o único impulso de seu motor. 18 metros em seu primeiro vôo, três metros acima do solo, em novembro de 1903, ainda um mês antes de Wright, ele realizou uma série de vôos a mais de 200 pés e mais de 10 pés acima do solo.


Uma vez que podemos aceitar relatos e o testemunho de passantes como prova, eu não vejo por que não aceitar Shivkar, Ader ou mesmo Whithead como tendo sido os primeiros a voar, todos eles vieram antes de Dumont e dos Irmãos wright, são incriveis e geniais, bem como tem maravilhosos relatos de voos.

Todos esses pioneiros citados acima têm seus voos relatados por testemunhas, tão válidas quanto as testemunhas dos irmãos Wright, mas com exceção de Santos=Dumont, nenhum deles voou na presença de outros cientistas, jornalistas, comitês técnicos, que validaram seus voos com base em métodos científicos, com documentação confiavel, extensa e segura. Santos=Dumont foi o primeiro a ter seus voos filmados.

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Os irmãos Louis e Auguste Lumière projetaram um filme pela primeira vez em 1895, a filmagem já era uma realidade desde os primeiros voos e é uma excelente evidência científica - por que então nunca foi documentado cinematograficamente nenhum voo desses outros pioneiros?

Se vamos usar o uso adequado e perfeito do método científico, levando em consideração a abordagem de resolução de problemas, onde os cientistas fazem perguntas pertinentes e realizam testes diferentes,  demonstram a descoberta diante de especialistas, capazes de avaliar todas as etapas com base científica, sem preconceitos ou outros interesses que não a ciência - não há dúvida de que Santos=Dumont foi o primeiro homem a voar com o mais pesado que o ar, trazer à humanidade todos os benefícios do transporte aéreo e a inspirar toda uma geração de novos pioneiros.


sábado, 16 de maio de 2020

Como Santos Dumont pilotava o Número 6


Santos=Dumont parte de seu hangar em St. Claude na presença de convidados ilustres Permanecei


“...Si tivesse um conselho a dar aos que praticam o dirigível, diria: "Permanecei perto de terra" O lugar duma aeronave não é nas grandes altitudes. Mais vale fisgar-se nos galhos das árvores, como fiz no Bosque de Bolonha, que expor-se aos perigos das regiões elevadas sem a menor vantagem prática....”

Número 6 no galpão de Leo Stevens em NY, EUA - aqui vemos o conector da parte elétrica e o volante (timão) do leme de calda. Essa aeronave posteriormente modificada para o N.8 e vendida para o Sr. Boyce

Do cesto Santos=Dumont tinha controle de todas as válvulas por meio de cordas suspensas, à frente podia acessar ao volante do leme barómetro/altímetro, na parte de traz ligava e desligava o motor, engrenava a hélice e ao acelerador

Depois de haver dominado os segredos do vôo com o balão cativo, dos primeiros dirigíveis números 1,2,3,4 e 5 Santos=Dumont já tinha muito domínio da navegação aérea, mencionado com alguma riqueza de detalhes no livro “Meus Balões” Tradução do original "Dans l'air",


A abertura e fechamento da válvulas era controlada poor cordas, Santos=Dumont tinha muita habilidade e rapidez para atar e desatar nós

5, 6 e 8 -Os Dirigíveis Campeões

Depois de aprimorar seus talentos como inventor, projetista, construtor e piloto dos dirigíveis anteriores, Dumont chega a seu ápice para a época com o seu Dirigível N.5, que em sua evolução da origem ao N.6, depois do acidente de 08 de agosto de 1901 e por fim o N.8 - assim sendo, este dirígivel foi o primeiro a ganhar o prêmio de dirigibilidade na França (Deutsch), bem como o Primeiro para voar nos Estados Unidos, pilotado pelo Sr. Boyce.

Sua nova nascele é feita de madeira de pinho, presa ao invólucro de seda japonesa por meio de cordas de piano. A impermeabilização do invólucro é um composto com látex, especialmente desenvolvido pela empresa La Chambre & Marchuron, para que Santos=Dumont tenha as melhores chances de ganhar o prêmio Deutsch – cuja o percurso de 11 quilômetros era sair do Aeródromo de Saint-Cloud, contornar a torre Eiffel e voltar em menos de 30 minutos.

Santos Dumont se esforçou mais do que ninguém para conseguir conquistar o prêmio, não tinha concorrentes à altura, completou com sucesso o percurso longo em 12 de julho de 1901, caindo no dia seguinte nos castanheiros do Barão de Roschild. 



Continuou seus voos até sofrer um grave acidente no dia oito de agosto no hotel Trocadero.


Domont rapidamente consertou o número 5 criando o número 6.

Como sempre, fez importantes alterações, movimentando o cesto e o motor para mais próximo da proa e aumentando o leme de cauda.


Teve seu primeiro voo no dia 6 de setembro de 1901 e acabou por conquistar o premio Deutsche no dia 19 de outubro do mesmo ano, tornando-se o primeiro homem a navegar pelos ares.

1 - A Pressão do Invólucro”

A pressão no invólucro era imprescindível, pois se estivesse muito cheio poderia estourar como o PAX de Augusto Severo. Se estivesse muito vazio perderia sua forma, dobraria e cairia como uma pedra amarrada a um trapo como aconteceu com o numero 1 (veja o capitulo http://santosdumontvida.blogspot.com/2008/03/comeo-da-vida-de-inventor.html )

“... A pressão interna na sua parte dianteira sendo continuamente de 30quilos por metro quadrado, o invólucro de seda que o constitui deve ser normalmente bastante forte para suportá-la. Mas é fácil compreender que o equilíbrio se modificará á medida que o aparelho ganhar movimento e aumentar a velocidade. Enfrentando o ar, a aeronave determina uma contra-pressão sobre a parte externa da proa. Por conseguinte, até 30 quilos por metro quadrado todo aumento de velocidade tende a diminuir a tensão; de forma que quanto mais rápida for a marcha, menor será o risco dessa parte do balão estourar.
Santos=Dumont tinha dosi sistemas de válvulas, aquelas que desaprovam automaticamente mediante a pressão dos gases (1) e as que ele mesmo controlava com proposto de aumentar e reduzir as forças ascensoras.

A que velocidade pode avançar um balão, levado pelo seu motor e seus propulsores, sem que sua proa, ao romper o ar faça mais do que neutralizar a pressão interna? Isto ainda é objeto de cálculo. Para não fatigar o leitor limitar-me-ei a lembrar que minhas ascensões no Mediterrâneo demonstraram a possibilidade, para o balão do "N.° 6", de sustentar uma velocidade de 36 a 42 quilômetros sem nenhum sintoma de tensão...”
detalhes dos comandos na parte traseira com base na foto

Santos=Dumont regulava constantemente a pressão do hidrogênio no invólucro por meio de válvulas automáticas, válvulas controladas por cordinhas de sua nacele e no meio do balão havia um pequeno balão de ar enchido por uma ventoinha que impedia o balão de dobrar-se ao meio.

2 - Subidas e descidas

Para controlar a altitude Santos=Dumont fazia uso de um sistema de pesos moveis. Uma vez que sua aeronave era extremamente bem equilibrada, o simples fato de deslocar um peso situado no centro de equilíbrio da quilha para frente fazia com que o bico da aeronave apontasse para baixo. Impulsionado pela hélice em movimento fazia com que a aeronave descesse. 
Cesto original de Santos=Dumont Musee de l'Air et de l'Espace em Le Bourget

Portanto para subir, só o que tinha a fazer era deslocar o mesmo peso para a poupa elevando a proa, que impulsionado pela hélice em movimento fazia a aeronave ganhar altitude.
Santos=Dumont liga e desliga as bobinas

“... Relativamente ás combinações de movimentos verticais e horizontais, o homem acha-se, de um modo absoluto, sem experiências. Pois como todas as nossas sensações de movimento se exercem praticamente em duas dimensões, a extraordinária novidade da navegação aérea reside em nos proporcionar a experiência não, sem duvida, da quarta dimensão, mas do que é, praticamente, uma dimensão suplementar, a terceira. E o milagre é semelhante. Em verdade, eu não saberia descrever convenientemente a surpresa, c alegria, a embriaguez produzida por esse livre movimento diagonal da proa do aparelho, na subida, ou na descida, combinado com as bruscas mudanças horizontais de direção, quando a aeronave responde a um comando do leme. Os pássaros devem experimentar a mesma sensação, quando distendem suas longas asas e seu vôo flecha no céu...”

3 - Guide-rope

Trata-se de uma corada móvel que Santos=Dumont deixava dependurada da aeronave para aliviar o peso do balão quando entrava em contato com o solo. Reparem num balão de festas normal semi cheio o barbante encosta no chão e o balão encontra seu ponto de equilíbrio, ele não sobe e nem desce.
Touca e óculos de voo de Santos=Dumont - CONGAP de São Paulo

“...Esta primeira ascensão permitiu-me apreciar devidamente a utilidade do "guide-rope", modesto acessório sem o qual a aterrissagem de um balão esférico apresentaria graves dificuldades na maior parte dos casos.

O guide-rope era usado também para ajudar nos movimentos de elevação de proa ou poupa:

“...Para me opôr á descida tive de empurrar para trás o "guide-rope" e os pesos deslocáveis. A aeronave tomou uma posição diagonal e o que restava de energia
ao propulsor fê-lo remontar de modo contínuo....”

4 - Leme de Direção, propulsão e motor
Vista frontal do dirigível com o barometro, que fazia as vezes de altímetro e o volante do leme

“... Eu era senhor do meu leme, do motor e do propulsor...”

A frente de sua nacele Santos=Dumont instalou um volante que através de um simples sistema de polias fazia com que a cana do leme virasse para a esquerda (quando girava o volante para a esquerda) e para a direita.

Abaixo do barômetro acionava o afogador de forma a aumentar e reduzir a velocidade.

“...Aumentando a velocidade do propulsor para 140 voltas por minuto, realizei, dum ponto fixo, um esforço de tração de 55 quilos... Achava-me a uma altitude de 150 metros. Bem entendido, podia interromper essa subida diagonal moderando o motor...”

O motor tinha que ficar constantemente trabalhado porque primeiro - não tinha como dar a partida no ar e segundo – mantinha a bomba de ar em funcionamento.
Nessa foto vemos o controle de engate e desengate da hélice 

“... O ventilador encarregado de alimentá-lo fazia, praticamente, parte integrante do motor. Girando sem cessar, quando o motor estivesse em marcha, forneceria continuamente ar ao balão compensador, quer este pudesse contê-lo ou não. O excesso seria expulso por uma válvula relativamente fraca (válvula de ar, fig. 10), comunicando para fora com a atmosfera pe lo seu fundo, comum ao do grande balão externo. Para aliviar este, quando o exigisse a dilatação do hidrogênio, provi-o de duas válvulas de gás, (válvulas de gás, fig. 10, as melhores que me foi possível confeccionar. Estas, por sua vez, estavam em comunicação exterior com a atmosfera. Suponhamos que após uma certa condensação do hidrogênio, o balão compensador interno se enchesse parcialmente de ar fornecido pelo ventilador, e garantisse assim ao grande balão sua forma rígida...”

Logo atrás instalou um controle de engate do motor que podia afastar ou encostar um disco de transmissão da hélice ao motor.

As preocupações básicas para voar seu dirigível Santos=Dumont resume de forma pratica :

“... Mau grado sua grande simplicidade, minhas aeronaves exigem uma vigilância contínua sobre certos pontos capitais. 
O balão está cheio até o ponto?
Há alguma possibilidade de escapamento do gás?
O motor marcha convenientemente?
A maquinaria está em bom estado?
As cordas de comando do leme, do motor, do "water ballast", dos pesos 
deslocáveis, funcionam livremente?
O lastro foi exatamente pesado?
Como máquina, a aeronave não reclama mais cuidados que um automóvel...”

O Prêmio Deutsch

“A uma das assembléias do Aero Club compareceu um senhor,muito tímido, muito simpático, que ofereceu, ele, Deutsch de la Meurthe, um prêmio de cem mil francos ao primeiro aeronauta que,


dentro dos cinco anos seguintes, partindo de St. Cloud, que era então onde se achava o Parque do Club, circunavegasse a Torre Eifel e voltasse ao ponto de partida, tudo em menos de 30 minutos. Acrescentou mais, que no fim de cada ano, caso não fosse ganho o prêmio, se distribuíssem os juros do dinheiro entre os que melhores provas tivessem obtido. Era sentir geral que cinco anos se passariam sem que o prêmio fosse ganho. Precisava atingir a uma velocidade de mais ou menos 30 km por hora. No dia seguinte à instituição do prêmio Deutsch,


iniciei a construção do meu n.º 4 e

 
de um hangar em St. Cloud.

Adquiri o motor mais leve que encontrei no mercado, tinha a força de 9 HP e pesava 100 quilos. Era a maravilha de então... Com esse balão, no ano de 1900, meu único concorrente ao prêmio foi o Sr. Rosc, cujo balão não conseguiu nunca subir”.

 

A Conquista do Prêmio Deutsch

“I niciei a construção de um novo balão e novo motor, este um pouco mais forte,aquele um pouco maior. Três semanas,contadas dia por dia, após o último desastre, meu aparelho, o n° 6, estava pronto.

O tempo, porém, continuava mau. Em 19 de outubro de 1901 à tarde, pois a manhã foi chuvosa, a partida oficial teve lugar ás 2 horas e 42. Embora o vento me açoitasse de lado, com tendência para levar-me para a esquerda da Torre, mantive-me na sua linha direta. Avancei elevando gradualmente a aeronave a uma altitude de 10 metros acima do seu pico. Esta manobra fazia-me perder tempo, mas premunia-me, na medida do possível, contra todo perigo de contato com o monumento.Subi de novo, contornei a Torre, a uma altura de 250 metros, sobre uma enorme multidão que aí estacionava à minha espera.A volta foi demorada. O vento era contrário. O motor, que até então havia se comportado bem, assim que deixou a Torre para trás uns 500 metros, ameaçou parar. Tive um instante de graveindecisão. Era preciso tomar uma medida rápida. Com o risco de desviar o rumo, abandonei por um momento o leme a fim de concentrar a atenção na maneta do carburador e na alavanca de comando da faísca elétrica.

O motor, que havia quase parado, retomou o seu ritmo. 

Eu acabava de atingir o Bosque de Bolonha. Aí, por um fenômeno que bem conhecem todos os aeronautas, a frescura das árvores começou a fazer o balão progressivamente mais pesado. E por desagradável coincidência, o motor voltou a moderar a velocidade. De tal sorte que a aeronave descia ao mesmo tempo que a força motriz tomava-se menor. Para me opor à descida tive que empurrar para trás o guide-rope e os pesos deslocáveis. A aeronave tomou uma posição diagonal e o que restava de energia ao propulsor fê-lo remontar de modo contínuo.


Eu havia chegado à pista do campo de corridas d’Auteuil. O aparelho passava por cima do público, com a proa levantada muito alto, e eu ouvia os aplausos da enorme multidão, quando, repentinamente, meu caprichoso motor readquiriu sua plena velocidade. Subitamente acelerado, o propulsor, que se encontrava quase sob a aeronave, tão empinada ia esta, exagerou ainda mais a inclinação. Às ovações sucederam-se gritos de alarme.
Da minha saída ao momento em que passei do zênite do ponto de partida, decorreram 29 minutos e 30 segundos. Com a velocidade que levava, passei a linha da chegada - como fazem os yachts, os barcos a petróleo, os cavalos de corridas, etc.
- , diminuí a força do motor e virei de bordo; então, voltando, e com menos velocidade, manobrei para tocar a terra, o que fiz em 31 minutos após minha partida.
Não sabia ainda qual o tempo exato. Gritei: - Ganhei? Foi a multidão que me respondeu: - Sim! Pois bem, alguns senhores quiseram que fosse esse o tempo oficial! Grandes polêmicas. Tive comigo toda a imprensa e o povo de Paris e também Son Altesse Imperiale le Prince Roland Bonaparte, presidente da Comissão Científica que ia julgar o assunto. O voto me foi favorável.”

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Minissérie sobre Santos Dumont na HBO

Luiz Pagano e Estevão Ciavatta no lanámento do livro 'Mais Leve Que o Ar'
“...Nossa visão é muito curta, meu filho” disse Henrique Dumont a Santos, quando ainda era uma criança, “veja o passarinho: ele voa acima das cercas, dos países, das fronteiras, sem pedir autorização. Sabe por quê? Por que lá de cima a terra não tem dono”.

Essa sem duvida é a passagem mais bonita que achei no primeiro capitulo da Minissérie Santos=Dumont, levada ao ar pela HBO nesse ultimo domingo. Esse mesmo dialogo aparece no livro infantil ‘Mais Leve Que O Ar’ de Estevão Ciavatta, que dirige a minissérie de seis capítulos ao lado do também amigo Fernando Acquarone.
Série Santos=Dumont da HBO

Santos=Dumont foi um grande homem, via no avião e seu futuro uso pela humanidade, como uma linda forma de integração, na qual homens e mulheres iriam poder viajar pelo globo terrestre, compartilhando cultura e valores nobres. A aeronave viria a ser uma ferramenta de paz e integração universal, incrementando nossos valores humanos mais nobres - talvez tenha sido por isso, que teve uma enorme tristeza ao ver o uso bélico de seu invento no ano de 1932.

Santos=Dumont inspira nos homens os valores de amizade e cooperação, por causa da minissérie tive a oportunidade e o grande prazer de fazer amizade com Estevão Ciavatta, com quem compartilho ideais de amor pelo Brasil, de auto-valorização e respeito por nossa própria cultura.

Recentemente, estive com ele no lançamento do filme Amazônia Sociedade Anônima, que corajosamente relata as lutas do cacique Juarez Saw Munduruku contra forças mesquinhas e ignorantes, tais como a de grileiros, madeireiros clandestinos e o pouco caso de políticas publicas. Ao final, tivemos um rico debate sobre o assunto e eu tive a oportunidade de levar o Cauim Tiakau, o qual tenho me empenhando muito em trazer das tribos para a civilização, e fizemos um brinde.
Na foto da esquerda para a direita vemos o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, cacique Juarez Saw Munduruku, Daniela Chiaretti, repórter especial de ambiente do jornal Valor Econômico, e o amigo Estevão Ciavatta, todos eles com uma taça de Cauim Tiakau na mão após o brinde t’ereîkokatu em tupi antigo (peiyá em Mundurucu)

Nos nossos poucos e rápidos encontros, senti vivamente que também compartilhamos do prazer de prestar o importante e divertido serviço de levar ao grande publico brasileiro uma prospera mensagem, de que é bom ser brasileiro e criativo, tal como Santos=Dumont foi.

O seriado já está no ar para assinantes, numa das mais legais e sofisticadas produções cinematográficas brasileiras de todos os tempos, espero que possamos aproveitar muito bem essa dose de incentivo ao gênio criativo e desenvolvedor que existe na alma de cada um de nós, brasileiros como Dumont. 

Os objetos e réplicas vistos no seriado serão doadas à prefeitura de Petrópolis. O triciclo, a mesa e  cadeiras gigantes usadas na minissérie “Santos Dumont: mais leve que o ar”, bem como uma réplica do "Marciano"  inventada pelo “Pai da Aviação”. 


Os objetos poderão ser vistos nas ruas da Cidade Imperial e, principalmente, o Museu Casa de Santos Dumont, quefoi locado como cenário para a minissérie. Agora, o público poderá ver de perto as peças, que estarão em exposição no Centro de Cultura Raul de Leoni.

A Galeria Van Dijk vai receber ainda fotos e textos que contam um pouco mais sobre essa personalidade conhecida em todo o mundo. 

sábado, 6 de outubro de 2018

Viva o Brasil Unido - Santos=Dumont

Lembrando Santos-Dumont:

"Viva o Brasil Unido!"

Carta original, datilografada e assinada por Santos=Dumont celebrando o Brasil Unido
'As eleições se aproximam e o país vive momentos de expectativa e esperança. Dos novos governantes que serão eleitos, espera-se que governem para todos os brasileiros, respeitem as leis e visem sempre o bem comum.
Por este motivo, talvez seja oportuno lembrarmos de Santos-Dumont. Em um momento especialmente conturbado de nossa História, dias após a eclosão da Revolução Constitucionalista de 1932, Santos-Dumont, desejando inteirar-se da situação política, solicitou uma audiência com o então governador do Estado de São Paulo, Pedro de Toledo. Ao sair da reunião, declara que vai escrever uma carta-manifesto. Na carta, publicada em 14 de julho de 1932, Santos-Dumont clama pelo respeito à Constituição e pelo fim do conflito entre irmãos. Ao final, prega a união de todos os brasileiros: "Viva o Brasil Unido!"

"São Paulo, 14 de julho de 1932. Meus patrícios,

Solicitado pelos meus conterrâneos moradores neste Estado para subscrever uma mensagem que reivindica a ordem constitucional do país, não me é dado, por moléstia, sair do refúgio a que forçadamente me acolhi, mas posso ainda por estas palavras escritas afirmar-lhes, não só o meu inteiro aplauso, como também o apelo de quem, tendo sempre visado a glória da sua pátria dentro do progresso harmônico da humanidade, julga poder dirigi-se em geral a todos os seus patrícios, como um crente sincero em que os problemas da ordem política e econômica que ora se debatem, somente dentro da lei magna poderão ser resolvidos, de forma a conduzir a nossa pátria à superior finalidade dos seus altos destinos.
Viva o Brasil Unido!
Santos=Dumont."

Exerça sua cidadania e vote com consciência.
Viva Santos-Dumont!
Viva a Democracia!
Viva o Brasil Unido!

Leia trecho do livro "Alberto Santos-Dumont, Novas Revelações”, de Cosme Degenar Drumond:

“Em 23 de maio de 1932, uma agitação popular assombrou a capital do estado. Populares saquearam uma loja de armas e atacaram a sede da Legião Revolucionária (que apoiava Vargas). Durante o tiroteio, quatro estudantes foram mortos: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Suas iniciais, MMDC, tornou-se grito de guerra e, a despeito das articulações políticas para evitar o agravamento da situação, a conflagração rebentou após entendimentos entre paulistas, gaúchos e mineiros. As tropas de voluntários mobilizadas provinham de todas as classes sociais. O interventor de São Paulo desaconselhou a luta armada. Mas, ao ver seus esforços fracassarem, enviou telegrama a Vargas: 'Esgotados todos os meios que a meu alcance estiveram para evitar o movimento que acaba de se verificar na guarnição desta região, ao qual aderiu o povo paulista, não me foi possível caminhar ao revés dos sentimentos de meu Estado'. Pedro de Toledo renunciou ao cargo de interventor. Contudo, aclamado pela revolução que se formava, foi reconduzido ao poder.

Santos-Dumont quis se inteirar dos acontecimentos políticos e solicitou audiência a Pedro de Toledo. No Palácio dos Campos Elísios, foi recebido por um assessor do gabinete, Cândido Motta Filho (1897-1977), que desde criança admirava o inventor. Tanto que, em 1919, fizera um voo panorâmico, recorrendo ao aviador americano Orton Hoover, instrutor de voo da Força Pública Paulista. Duas décadas mais tarde, Motta Filho viria a ser ministro da Educação e Cultura no governo Café Filho (1954-1955). Ali, ao lado de seu ídolo, ficou tão radiante que registrou o momento em suas memórias, 'Contagem Regressiva'. Uma cópia dessa passagem se encontra no arquivo organizado pelo brigadeiro Lavenère-Wanderley:


- Que alegria, para mim, conhecê-lo pessoalmente! Para mim, o senhor é uma figura de romance...
Ao que Santos-Dumont respondeu: 'Se fiz alguma coisa é porque era novo e acreditava que para a mocidade nada é impossível'.

Motta Filho observou-o melhor:

O personagem de Júlio Verne andava ao meu lado. Seus cabelos lisos, de uma cor baça e amarelada, caíam-lhe na nuca, por cima do colarinho alto. Seus passos apressados não pareciam, entretanto, de um albatroz, mas de um parisiense daquela sociedade que vinha de Bourget, passava por Maupassant e caía na pena de Marcel Proust.

No salão do palácio, enquanto aguardava o governador, tinha a cabeça baixa, os olhos fixos no chão enladrilhado, ele que vivera com os olhos no céu.

Na audiência com o governador rebelado, foi informado da gravidade da situação. Ao sair da reunião, já preocupado com o iminente conflito, a caminho do carro, cruzou novamente com o admirador que o elogiara momentos antes e comentou: 'Estou com São Paulo com todas as consequências dos momentos difíceis. Vou dizer isso em público, em manifesto. Não sou político, mas compreendo as situações políticas'.

Em poucos dias, seu quadro emocional alterou-se. Examinado por uma junta médica, recebeu a orientação de buscar uma cidade litorânea para uns dias em repouso. Escolhida a praia de Guarujá, ao lado de Santos, para lá foi transportado de carro por Jorge Villares. Hospedou-se no Hotel de la Plage, quarto nº 152, enquanto o sobrinho ocupava o quarto ao lado. O aviador Edu Chaves, que morava em Santos, passou a visitá-lo quase diariamente.”
Santos=Dumont testando seu último invento, o Lançador de boias salva vidas, próximo ao antigo Grand Hotel de La Plage, onde cometeu suicídio,  na praia das Pitangueira - Guarujá pouco antes de sua morte.

Nove dias depois de divulgar esta carta-manifesto e três dias após completar 59 anos, Alberto Santos-Dumont se suicidou, em 23 de julho de 1932, no Guarujá. A causa foi a depressão crônica, que o afligia há mais de uma década. Alguns biógrafos sustentam que o uso do avião como arma de guerra, durante a Revolução, teve influência em seu suicídio.

Seus restos mortais repousam junto aos de seus pais, Henrique e Francisca, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro'.


Texto integral de um fã da página que prefere não se identificar.

A Revolução de 1932 e a Morte de Santos=Dumont


Na foto acima vemos o famoso carro funerário que transportou o corpo de Santos=Dumont, bem como três momentos emblemáticos do dia de seu sepultamento: 1- a multidão carregando seu caixão; 2- A passagem pela Avenida Rio Branco, que ele menciona carinhosamente à Yoanda Penteado numa fotografia de 1928 e 3- O dilúvio causado pela chuva torrencial que caiu no dia de seu enterro. A Rua General Polydoro aparece completamente alagada e parte das cerimônias tiveram que ser canceladas.

É muito difícil para quem escreve sobre a ‘Maravilhosa Vida de Santos=Dumont, falar sobre sua morte. Mas 15 anos depois do inicio do blog, a pedido de leitores, segue minha pesquisa sobre o assunto.


Gostaria de iniciar e terminar essa matéria com as lindas palavras de Henrique Dumont Villares, seu sobrinho:

QUEM DEU ASAS AO HOMEM - 1953

“...De São Paulo que, no pungente momento desse trespasse, se achava isolado do resto do mundo por força do movimento armado, assim mesmo partiu e reboou longe a inesperada, dilacerante notícia.

Foram universais as manifestações de pesar. Logo, em 25 de julho, o governo do Brasil decretava “luto nacional por três dias, pelo falecimento de Alberto Santos-Dumont”, salientando, nos seus “consideranda”, que “o brasileiro Alberto Santos-Dumont, inventor da direção dos balões e do vôo mecânico, dotando a humanidade de novos engenhos para o seu desenvolvimento, estreitou os laços entre as nações e cooperou para a paz e solidariedade entre os povos, tornando-se, assim, merecedor da gratidão do Brasil, cujo nome honrou e glorificou”.

Não era esse, aliás, apenas um luto nacional: mas universal. Era um gênio que o mundo todo perdia. Para sempre fechava suas asas quem deu asas ao homem.

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Podemos iniciar este relato com a triste noite de 9 de julho de 1932, Santos=Dumont acompanhava as notícias dos confrontos na Praça da República, entre integrantes da Legião Revolucionária Getulista, fundada por Miguel Costa, e pessoas contrárias ao que a Legião defendia.

Segundo o artigo de 24 de outubro de 1932, desde aquela época, a suspeita de suicídio estava em pauta.

Nesse embate, onde foram usadas até armas de guerra, morreram os jovens paulistas Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo, que dariam origem à sigla MMDC que reunia os conspiradores revolucionários, e também à um confronto armado sem precedentes na historia de São Paulo.

Era a Revolução Constitucionalista de 1932. O Estado de São Paulo liderava uma revolta contra Getúlio Vargas, que, a seu ver, havia assumido o poder de forma antidemocrática. A insatisfação aumentou devido à nomeação por Vargas de um interventor externo para São Paulo.

As elites paulistas liberais exigiam eleições e uma nova Constituição, mas isso não aconteceu.

Foi então que a aviação teve seu importante papel, o governo federal contava com cerca de 58 aeronaves entre a Marinha e o Exército, enquanto os paulistas tinham apenas dois aviões Potez e dois Waco, além de alguns aviões de turismo. 

Um terceiro avião foi obtido pelos rebeldes com a deserção do tenente Artur Mota Lima, que trazia uma aeronave do Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro.

Os "vermelhinhos", como eram chamados os aviões do governo federal, eram usados em combate para bombardear cidades paulistas, inclusive Campinas, e também para propaganda, lançando panfletos sobre cidades inimigas e locais de concentração de tropas rebeldes. 

Aeronaves das Unidades Aéreas Constitucionalistas (UAC), apelidadas de “gaviões de penacho”, tiveram participação limitada.

Durante a Revolução de 1932, apesar das limitações das aeronaves, a aviação realizou duas façanhas notáveis: em 21 de setembro, atacou Moji-Mirim e inutilizou cinco dos sete aviões federais antes que pudessem decolar; e em 24 de setembro, três "Gaviãos de Penacho" atacaram o couraçado Rio Grande do Sul em Santos para relaxar o bloqueio do porto.

Aviões da Revolução Brasileira de 1932 - do lado legalista eram 58 aeronaves Waco CSO-5, os chamados "Vermelhinhos" - do lado paulista, a UAC - União Aérea Constitucionalistas, chamapdos de "Gaviões de Penacho" tinha , inicialmente, dois WACOs CSO e dois Potez 25 TOE, posteriormente foram adicionadas outras aeronaves como esta Nieuport-Delage NiD-72 chamada “Negrinho”.

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Nossa história se passa meses antes, no dia 23 de julho, quando Santos=Dumont é brutalmente atormentado pelos voos da guerra. 

A preocupação com o uso de aeronaves em guerra não era recente, seis anos antes, em 1926, Santos=Dumont já havia enviado uma carta à Liga das Nações pedindo a proibição do uso de aviões como arma de guerra, chegando até a oferecer uma quantia em dinheiro para quem escrevesse uma monografia sobre o assunto.

Sua solicitação foi ignorada.

Mediante tanta dor, a morte do inventor ocorreu no Hotel La Plage, quando seu repouso de convalesceça por um 'distúrbio nervoso' foi abruptamente interrompido pelo barulho de aviões indo para seu destino de guerra - a dor  tornou-se insuportável.

A versão da síncope cardíaca

Mesmo perplexa com os atentados à São Paulo, a opinião pública tentava entender o que de fato teria acontecido com Dumont, a versão oficial, contada pela imprensa, era que Dumont havia morrido de clapso cardiáco.

Esse é o trecho do laudo necrológico do legista Roberto Catunda:

“Guarujá – Alberto Santos Dumont – 23-julho-1932. Alberto Santos Dumont – Brasileiro, branco, solteiro, com 59 anos de idade, inventor. Ao que consta, foi encontrado morto em um dos apartamentos do hotel de La Plage, no Guarujá, onde residia. Trata-se do cadáver de um homem de estatura mediana e de constituição regular, ainda em estado de flacidez muscular. Veste terno de casimira preta, gravata preta e calça botinas pretas. Não encontramos pelo corpo vestígio de lesão traumática. A morte se deu por colapso cardíaco”.

Como sabemos, por conta da revolução de 32, S=D não pode ter seu velório e enterro no momento de sua morte, foi então que o professor da Faculdade de Medicina de São Paulo, Walter Haberfeld preparou o corpo de S=D para mantê-lo íntegro até o efetivo funeral, no dia 22 de dezembro de 1932, no túmulo que mandou construir no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Parte desse processo de embalsamamento, foi a retirada de todos os órgãos internos. Walter descartou todos os outros órgãos más manteve o coração preservado, “eu queria transformar o coração conservado numa representação física de Dumont em seu plano carnal”. Haberfeld manteve o coração de Dumont secretamente guardado em formol, por 12 anos, muitos crêem que ele queria guardar o coração de Dumont como forma de, num futuro próximo, revelar a verdadeira causa mortes de Dumont. 

O Destino desse órgão ficou desconhecido até o ano de 1944 quando Paulo Gomide, voltou a apresentá-lo.

O coração preservado de Santos=Dumont está em um escrínio dourado em forma de esfera celeste metálica, sustentado por um Ícaro, que envolve outra esfera de cristal, que, por sua vez, guarda o coração preservado em meio a soluções químicas. A peça foi confeccionada pela Fundição Zani e possui uma placa com a seguinte inscrição: EM 24 OUTUBRO DE 1944, DURANTE AS COMEMORAÇÕES DA "SEMANA DA ASA", FOI FEITA A ENTREGA, PELO DR. PAULO SAMPAIO, PRESIDENTE DA PANAIR DO BRASIL, AD DR. SALGADO FILHO, MINISTRO DA AERONAUTICA, DO CORAÇÃO EMBALSAMADO DE ALBERTO SANTOS DUMONT, QUE HAVIA SIDO RETIRADO DO SEU CORPO POR OCASIÃO DA AUTOPSIA REALIZADA PELO DR. WALTER HABERFELD, EM 24 DE JULHO DE 1932. A CONFECÇÃO DO ESCRÍNIO FOI INICIATIVA DO DR. PAULO SAMPAIO, E A CONCEPÇÃO ARTISTICA FOI DE AUTORIA DE AMERICO MONTEROSA E GUY EYMMINET. 

Era a Semana da Asa, no ano de  1944, o coração foi levado ao Rio de Janeiro em um voo, sendo entregue ao então Ministro da Aeronáutica, Joaquim Pedro Salgado Filho, pelo presidente da Panair, Paulo Sampaio.

Suspeitas de Enforcamento

Um capítulo significativo na história da aviação e da humanidade chegava ao fim, enquanto o mundo chorava sua partida, os acontecimentos que se seguiram revelaram a complexidade das emoções e reações humanas diante de uma perda tão importante, em um momento tão obscuro da a história do Brasil. 

A importante cobertura jornalistica, da Revista O Cruzeiro, escrita por Edmar Morel de 1972, sobre as conquistas e gorias de Santos=Dumont, bem como o depoimento do delegado Raimundo de Menezes, enviado de Santos ao Guarujá no dia de sua morte, comprovando o enforcamento.

O triste acontecimento do quarto 151 repercutiria em uma série de acontecimentos. Jorge Dumont Villares, que se hospedava no quarto 152, ao lado do tio e mentor, viu-se naquele momento com um grande desafio.

A solidariedade humana surge como um raio de luz em meio à escuridão, amigos, familiares e admiradores se uniram para homenagear Santos=Dumont e oferecer conforto, porém, nem todas as reações foram permeadas de respeito e empatia.

Luxuoso Grand Hotel La Plage, no Guarujá e algumas últimas fotos do Santos=Dumont no local, antes da tragédia do quarto 151

Alguns funcionários do hotel, repórteres e pessoas que estavam presentes no momento, em um gesto cruel e insensível, fizeram comentários desrespeitosos e mórbidos sobre os eventos ocorridos no quarto 151. Suas ações demonstram uma falta de compreensão da profundidade do luto e da importância histórica. E isso gerou uma serie de boatos e desinformações que persistem até os dias de hoje.

Mas foi somente em 1º de novembro de 1972 que a verdadeira história foi revelada, em uma reportágem histórica de Edmar Morel, autor de 'O Pai da Aviação', intitulada “Santos=Dumont, O Gênio Torturado”, faz um apanhado das conquistas e glórias do inventor, bem como aparece com um surpreendente relato do delegado Raimundo de Menezes, enviado de Santos ao Guarujá no dia de sua morte:

“Uma noite, recebi a informação vinda de Guarujá de que o grande inventor fora encontrado morto no banheiro. Organizei a caravana e para lá seguimos. No “Hotel La Plage”, o mais elegante daquela praia, tivemos que arrombar a porta do banheiro, por cuja clarabóia se avistava o corpo pendurado numa gravata ou num cordão de roupão. Magríssimo, era ele um feixe de ossos. 

Persuadido de que era o culpado pela invenção do avião, que estava servindo para bombardear os seus patrícios, disse por várias vezes a Edu Chaves, com quem se encontrava alojado no hotel, que se sentia angustiado por isso. 

Aproveitando um instante de descuido realizou o seu intento: enforcou-se. Comuniquei imediatamente ao chefe de Polícia, Dr. Tirso Martins, o ocorrido, bem como o pedido da família para que lhe fosse entregue o corpo, sem maiores formalidades legais. 

Autorizado, assim procedi, tendo por isso os jornais do dia seguinte anunciado o episódio como morte natural, havendo o médico legista dr. Roberto Catunda dado o atestado assim afirmando. Não houve inquérito policial. 

Tratava-se de uma glória nacional. Daí a ordem da Secretaria de Segurança, a pedido da família. 

Eis o que sei a respeito.”

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Mesmo com o chocante relato do delegado, que presenciou a morte e acabou com o mistério e as más palavras dos crueis, ainda hoje a morte de Santos=Dumont é cercada de polêmicas.

Sophia Helena, parente próxima do aviador, tinha muita dificuldade em abordar esse tema, ela dizia algo como "parece que ele se matou" ou "dizem que ele se matou" no documentário de Nelson Hoineff, roteiro de Henrique (no versão que tem 10 minutos a mais), como se não quisesse acreditar.”

E no fim deste duro, porêm importante artigo, como ela havia dito no início, termino com a frase de outro parente, Henrique Dumont Villares:

“E então, em 23 de julho de 1932, seus olhos, que tantas vezes viram o que ainda não vimos, fecharam-se para sempre.”

Há uma fala de Leonardo Da Vince, que considero uma oração e ilustra muito bem a vida e a morte de Santos=Dumont:

“Siccome una giornata bene spesa dà lieto dormie, così una vita bene usata dà lieto morire”.

Assim como um dia bem passado traz um sono feliz, uma vida bem vivida traz uma morte feliz.